Indústria perde participação no PIB

Agro e extrativismo pesam 16,2%

Manufatura arca com 10,3%

“Indústria ficou parada no tempo”

O crescimento de 1,2% no PIB (Produto Interno Bruto) do 1º trimestre e a soma dos bens e serviços produzidos no país, oculta uma tendência difícil de se reverter. O peso do setor agropecuário somado ao do extrativismo ultrapassou o da indústria manufatureira, indicou o economista Paulo Morceiro.

Pesquisador e pós-graduando em Desenvolvimento Industrial na Universidade de Joanesburgo, na África do Sul, Morceiro levantou a média móvel da participação dos 2 setores em cada trimestre desde 1996, conforme a série histórica do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Os dados escolhidos trazem os efeitos dos preços e da sazonalidade e incluem os divulgados na 3ª feira (1º.jun) sobre o 1º trimestre.

Desde o 2º trimestre de 2008, quando o setor manufatureiro teve peso de 16,8% no PIB, o maior dessa série histórica , houve queda gradual. Nos primeiros três meses de 2021, chegou a 10,3%. Com a agropecuária e a indústria extrativa (mineração, sobretudo), a curva manteve-se ascendente – apesar dos altos e baixos no meio do caminho. No 1o trimestre de 2021, o peso desses setores, somados, foi de 16,2%.

Segundo Morceiro, a evolução do setor industrial é preocupante por várias razões. Primeiro, indica a aceleração do processo de desindustrialização do país. Outras nações fortes no agronegócio, como os Estados Unidos, o Canadá e a Austrália, se posicionam igualmente como potências industriais.

Depois, porque o agronegócio no Brasil traz melhoria na qualidade de vida da população das regiões onde se concentra. Em especial, ao Centro-Oeste. A indústria de transformação, concentrada em áreas mais populosas, como o Sul e o Sudeste, traz benefícios a uma parcela maior de brasileiros.

 

 

“Não se trata de uma questão de rivalidade entre a indústria manufatureira e a agropecuária. Não é ruim ter um agronegócio forte. O problema é não ter também uma indústria forte”, afirmou Morceiro ao Poder360. “O ideal seria haver setores industrial e de serviços fortes e um agronegócio igualmente poderoso no país”

Morceiro lembra que, desde os anos 1950 e 1960, o método de produção agropecuária, extrativista e manufatureira mudaram acentuadamente. A agropecuária tornou-se intensiva em capital e incorporou a tecnologia à sua produção. Mas há uma limitada agregação de valor dos seus produtos no país.

A manufatura, antes protegida e beneficiada por incentivos fiscais e juros subsidiados, sofreu com o choque da abertura econômica dos anos 1990 e as oscilações cambiais. Perdeu produtividade, não conseguiu se adaptar ao ambiente global de alta competitividade e se tornou dependente da importação de insumos, em especial dos de alta tecnologia.

“A indústria ficou parada no tempo”, diz Morceiro. “Em 1986, a indústria de transformação tinha peso de 27,3% no PIB brasileiro. Em 2020, de apenas 11,3%. A perda foi de 16 pontos percentuais.”

No resultado do 1o trimestre deste ano, é preciso considerar que o pico da participação do agronegócio e da indústria extrativa resultou especialmente do aumento de preços das commodities. Também influenciou nesses ganhos a tendência de a China, desde o ano passado, ampliar seus estoques de alimentos e insumos minerais. Pequim havia planejado com base na expectativa de crise mais longa de covid-19, explica o economista.

Morceiro pondera também que, valendo-se do peso dos setores no PIB a preços constantes -sem o efeito do preço e da sazonalidade- a agropecuária e o extrativismo ainda não superaram a indústria de transformação. No 1o trimestre, o primeiro grupo teve participação de de 9,4%. O setor manufatureiro, de 12,1%.

“Essa virada é uma questão de tempo”, diz Morceiro.

Compartilhar:
×