Livro sobre ‘capitalismo de vigilância’ acusa big techs de roubo e receita mais leis

Obra sai agora no Brasil

Conceito define uma época

Leis europeias são modelo

 

Capitalismo de vigilância” é um daqueles conceitos que, por mais controverso que seja, define uma época: a de desencanto com os rumos que a internet tomou na mão das big techs, da decepção com o que se imaginava ser um novo mundo de compartilhamento, do sentimento de traição quando se lembra que as empresas que se vendiam como as mais revolucionárias eram corporações que queriam lucrar. Oh, céus, quanta ingenuidade havia, mas sonho é sempre assim.

 

“A Era do Capitalismo de Vigilância”, livro lançado na última semana no Brasil pela editora Intrínseca (tradução de George Schlesinger, 800 págs., preço sugerido de R$ 99,90), foi a obra que conseguiu essa façanha. Similar, mas em escala infinitamente menor, àquela do escritor inglês George Orwell com “big brother” em “1984”. Soshana Zuboff, a filósofa norte-americana, professora da Harvard Business School e autora do livro, nem foi a criadora do conceito, que circula desde os anos 1970 em círculos da esquerda europeia. Mas ela conseguiu captar o mal estar que as big techs injetaram no mundo ao criar um modelo de negócio baseado na captura de dados privados para serem usados em mercados futuros. Zuboff chama esse processo de “roubo” e se espanta com a mudança súbita que ocorreu nos Estados Unidos em torno da privacidade.

 

Os americanos sempre foram contra a adoção de um documento único de identidade por acreditarem que isso facilitaria a vigilância por parte do governo. Mas aceitaram como cordeirinhos que empresas como o Google e Facebook pilhassem milhares de dados pessoais sem dizer um “a” (os que diziam eram ridicularizados como paranoicos atrasados). Zuboff evoca o cenário histórico para explicar essa mudança. O liberalismo vale tudo dos anos Reagan destruíram as ferramentas de supervisão do Estado sobre as companhias.

 

Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 elevaram à Lua a preocupação dos americanos com segurança, e as ameaças reduziram a resistência em torno da privacidade, segundo ela. A tecnologia de subtração de dados fez o resto.

 

O Google foi a primeira empresa a perceber que o público tinha trocado o cão de guarda pela ternura e pelo comportamento bovino ao gerenciar os seus dados pessoais, escreve Zuboff. Aproveitou que havia um espírito de colaboração dos usuários da primeira fase da internet na construção de ferramentas de busca (e havia mesmo muita colaboração espontânea). Como todos pareciam em “entorpecimento psíquico”, como diz Zuboff, o Google começou a usar os dados pessoais para vender publicidade e direcionar anúncios. Foi assim que a empresa se tornou a maior agência de publicidade do mundo.

 

A professora de Harvard reescreve a ideia de que “você é o produto” quando alguém oferece algo gratuito, disseminada por Jaron Lanier, autor de “Dez Argumentos Para Você Deletar Agora Suas Redes Sociais”. Diz Zuboff: “Esqueça o clichê de que, se for de graça, ‘você é o produto’. Você não é o produto; você é o cadáver abandonado. O ‘produto’ é derivado do excedente que é tirado da sua vida”.

 

O grau de violência da frase revela a frustração da pesquisadora com Amazon, Apple, Facebook, Google & cia, como ocorre com os recém-convertidos. Zuboff elogiava essas empresas até 2009. Ela dizia que corporações como Apple, eBay e Amazon estavam “liberando grandes quantias de valor ao oferecer às pessoas o que elas queriam em seus próprios termos e em seu próprio espaço”.

 

A crítica europeia ao vale tudo das big terchs americanas parece ter sido essencial para Zuboff mudar de posição em relação às big techs. A autora lembra de uma das promessas que existiam na virada dos anos 2000, que poderiam estar no mercado, mas foram desvirtuadas porque o mercado preferiu o dinheiro fácil das redes sociais em vez de investimentos em pesquisa. Nessa época, conta ela no livro, o projeto Aware Home, do Instituto de Tecnologia do Estado da Geórgia, já falava em “casa inteligente” e “internet das coisas”, que só seriam desenvolvidas posteriormente. O resultado desses estudos, diz ela, seria “um futuro digital para empoderar os indivíduos a fim de levar uma vida mais eficaz”. Em vez disso, o mundo da internet foi soterrado por fake news, teorias conspiratórias, confrontos criados por algoritmos, enfim, o oposto do mundo ensolarado que se imaginava nos anos 1990.

 

Zuboff propõe medidas práticas, algumas baseadas em experiências europeias. Defende uma lei do esquecimento, não para retirar da rede fatos reais que incomodam as pessoas, mas para banir notícias falsas e equívocos. Propõe também que haja mais pressão de movimentos sociais para tornar a democracia mais permeável para as pessoas comuns. E defende ferrenhamente a regulamentação das big techs. Tudo o que aconteceu nos Estados Unidos, segundo ela, foi resultado da falta de leis. Os congressistas americanos parecem concordar com a pesquisadora. Há uma avalanche de projetos de lei para regulamentar as big techs desde que o livro foi lançado nos Estados Unidos, em 2019. Antes tarde do nunca.

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Facebook e Instagram decidem suspender Trump até janeiro de 2023

Citam “grave violação de regras”

Comitê de Supervisão pediu decisão

Nova análise será feita após 2 anos

O Facebook anunciou nesta 6ª feira (4.jun.2021) que o ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump permanecerá suspenso da rede social até janeiro de 2023. A decisão vale também para o Instagram.

O republicano foi banido das plataformas em 7 de janeiro deste ano, depois de incentivar protestos que culminaram na invasão do Capitólio (Congresso norte-americano) enquanto o Senado fazia a contagem de votos para certificar a vitória do candidato Joe Biden nas eleições presidenciais realizadas em 3 de novembro.

A suspensão foi acatada pelo Facebook depois de recomendação do seu Conselho de Supervisão para que o tempo de afastamento fosse definido.

“Estamos hoje anunciando novas regras a serem aplicados em casos excepcionais, como este. Estamos confirmando a penalidade com limite de tempo consistente com os protocolos que estamos aplicando às contas do sr. Trump”, diz comunicado.

 

 

A suspensão de 2 anos aplicada ao ex-presidente é a maior penalidade prevista nas novas regras de uso da rede social.

Depois do período de suspensão, uma nova análise será feita para “avaliar se o risco à segurança pública diminuiu”. Caso especialistas da rede social recomendem, o período poderá ser prorrogado.

Além do Facebook e do Instagram, pelo menos 10 redes sociais fizeram restrições a Trump: Twitter, Google, Snapchat, Shopfy, Reddit, Twitch, YouTube, TikTok, Discord e Pinterest.

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Facebook brinca de avestruz e esconde o fracasso da empresa no combate às fake news

Brasil é caso de sucesso

Equipes locais são trunfo

Rússia lidera os ataques

Facebook tem se empenhado em brecar o fluxo de notícias mentirosas que circulam por essa rede social. O banimento do ex-presidente Donald Trump da rede é o emblema mais vistoso dessa mudança de comportamento. Mark Zuckerberg, finalmente, reconheceu que ataques à democracia e discursos de ódio não fazem parte do ferramental que caracteriza liberdade de expressão. Era esse lenga-lenga que ele adotava quando lhe cobravam que o Facebook tinha a obrigação de banir atitudes que eram proibidas pelas próprias regras da plataforma. É por tudo isso que soa como história da carochinha o relatório sobre a política de segurança divulgado pelo Facebook na última quarta-feira. Parece uma fábula da época da guerra fria, no qual a Rússia, Irã e China fazem o papel de vilões, como se estivéssemos num velho filme do 007. Pior para o Facebook, porque a realidade é milhões de vezes pior do que essa peça de ficção ordinária que a companhia quer contar.

O relatório tem um nome anódino (“Threat report. The State of Influence Operations 2017-2021) para o período mais turbulento da história do Facebook. Eis a íntegra do relatório (809 Kb).

Esses 5 anos contemplam as mentiras seriais de Trump, a interferência russa nas eleições dos EUA em 2016 (investigada a partir de 2017), o uso das fake news por Jair Bolsonaro na eleição de 2018, a tentativa russa de influenciar o resultado de votações no Reino Unido, o incitamento de genocídio em Myanmar, que resultou em 25 mil mortes de muçulmanos, e um grande etc.

O documento diz que desde 2017 a equipe de segurança do Facebook removeu 150 operações que violavam a política da empresa contra Comportamento Inautêntico Coordenado (CIB, em inglês, acrônimo de Coordinated Inauthentic Behavior). Rússia, Irã, Myanmar, Estados Unidos e Ucrânia, nessa ordem, são os países que tem mais redes disseminando notícias fraudulentas ou ataques. Não há uma explicação clara sobre o método que o Facebook usou para chegar a esse ranking.

O título anódino é seguido por um conteúdo que prima pela omissão ou por tratar com ligeireza de um relatório de administração os casos mais polêmicos, entre os quais um genocídio que a própria empresa reconheceu ter culpa no cartório. O caso de Trump, talvez o maior escândalo do uso de rede social com fake news, é citado numa nota de rodapé sobre o banimento de adolescentes republicanos que disseminavam notícias falsas. O nome do ex-presidente é citado duas vezes. O Brasil aparece apenas uma vez, colocado num balaio junto com EUA, Reino Unido, Índia, Moldávia e Honduras. Não há nada em comum entre esses países, mas o Facebook resolveu juntá-los num suposto caso de sucesso, já que os conteúdos foram controlados por equipes locais, que conhecem a língua, os costumes e os atores políticos envolvidos nas disputas.

 

 

Um trecho do relatório elogia a política do Facebook para o Brasil e os outros país: “Cerca da metade das operações de influência que removemos desde 2017 _incluindo Moldávia, Honduras, Romênia, Reino Unido, Estados Unidos, Brasil e Índia_ foi conduzida por locais que são familiares com questões domésticas e com a audiência. São campanhas políticas, partidos e empresas privadas que empregam táticas enganosas para atingir seus objetivos”. Isso é tudo que o diretor de políticas de segurança tem a dizer sobre o país que é o quarto país que mais usuários têm do Facebook.

Só dá para entender o orgulho do Facebook de ter “equipes locais” se você conhecer o outro lado da política da empresa. Não há um percentual exato, mas ex-funcionários do Facebook relatam histórias que parecem de que casos extremamente complexos de disputa são moderados por funcionários que não sabem a língua local. Eles fazem o que qualquer estudante mais preguiçoso faria: usam o Google Translator. Isso ocorreu no caso do Azerbaijão, segundo a cientista de dados Sophie Zang, um ex-funcionária do Facebook que acusa a empresa de ser complacente com fake news e perfis falsos ligados a políticas de direita ou extrema direita. O uso do Google Translator parece piada quando se sabe que o Facebook é a sexta empresa mais valiosa do mundo no mercado de capitais (US$ 870,5 bilhões.

O caso mais inacreditável de omissão parece ser o das eleições americanas. Steve Bannon, o marqueteiro de Trump que tentou criar uma internacional da extrema direita e fracassou, foi um dos impulsionadores do slogan Stop the Steal (Pare o Roubo), uma alusão à suposta manipulação dos resultados na disputa. Foram feitas recontagens em mais de 20 Estados, mas estava tudo certo; não havia roubo algum; Trump perdeu as eleições mesmo. Pesquisa do instituto Ipsos feita em abril desrte ano diz que 55% dos Republicanos acreditam que Trump perdeu porque a eleição foi roubada. Mesmo com esse percentual alto, o Facebook diz que não incluiu o caso do Stop the Steal no relatório porque não foi um fenômeno massivo.

O Facebook parecia ter mudado após o banimento de Trump. Durante anos a empresa se beneficiou da audiência que Trump, Bolsonaro e outros populistas geram para a companhia. Reduzir o Stop the Steal a um burburinho mostra que Zuckerberg continua o mesmo empresário arrogante que só entende a linguagem do dinheiro. A empresa só passou a punir mentirosos porque o mercado ameaç

ou com um boicote publicitário de proporções bíblicas. Não é que a empresa tolera fraudes; ela própria produz mentiras, como o relatório de segurança de maio de 2021.

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