Lenda viva do Judô, Sensei Sato vive em Campo Grande e aos 85 anos lamenta não poder lutar mais

Lenda, segundo o dicionário, é uma narrativa de caráter maravilhoso em que um fato histórico se amplifica e transforma sob o efeito da evocação poética ou da imaginação popular. Com trajetória irreparável e uma carreira única no judô, o sensei Noritoshi Sato vive em Campo Grande e é um dos maiores judocas do Brasil.

Em japonês, “sensei” significa “professor”. Mas, além disso, a palavra também é um título de honra para pessoas que ensinam algo ou são especialistas em sua área de atuação. Aos 85 anos, Sato nasceu em Bastos, interior de São Paulo, em 11 de maio de 1936, mas foi somente aos 21 anos que começou a treinar o esporte que o consagrou.

“Comecei tarde, com 21 anos, em São Paulo. Simplesmente, um vizinho falou ‘vamos lá treinar judô’ e eu fui. Só não trenei Judô antes dos 21 por causa do meu pai. Meu pai gostava muito do kendo (quendô — arte marcial japonesa moderna a partir das técnicas tradicionais de combate com espadas dos samurais do Japão feudal). Não cheguei a pegar faixa de primeiro grau. Meu pai, inclusive, era descendente de samurai”, conta ele ao Jornal Midiamax.

Sensei Sato recebeu a equipe do Jornal Midiamax em sua casa (Foto: Henrique Arakaki)
Sensei Sato recebeu a equipe do Jornal Midiamax em sua casa (Foto: Henrique Arakaki)

No ano seguinte, em 1958, Sato começou a treinar na Academia Augusto Cordeiro, no Rio de Janeiro. “De lá, saí como faixa verde”, relembra. O primeiro contato com MS aconteceu em 1986, quando foi chamado para treinar alunos em Dourados.

“O motivo de eu ter conhecido Mato Grosso do Sul foi através de um dos alunos que treinou com nosso mestre, que veio do Japão. E ele assistiu meu exame que a confederação fez, eu passei e ele esteve presente. Então, ele ficou sabendo que fui aprovado no exame da CBJ (Confederação Brasileira de Judô) e aí me chamou para dar aula lá em Dourados, como técnico. Ele estava pedindo técnico formado”, explica o sensei.

Entretanto, sua passagem inicial pelo Estado não obteve muito êxito. “Não deu certo em Dourados porque na hora da Prefeitura fazer o contrato, o clube estava irregular. Aí voltei pra São Paulo”, revela. Alguns anos depois, Sato partiu para o Japão com a família, onde passou uma temporada de dez anos trabalhando por uma vida melhor, antes de se estabelecer em Campo Grande de vez.

Álbum de relíquias conta com imagens de treinos no passado. Na imagem, Sato é o primeiro da esquerda para a direita (Foto: Henrique Arakaki)
Álbum de relíquias conta com imagens de treinos no passado. Na imagem, Sato é o primeiro da esquerda para a direita (Foto: Henrique Arakaki)

“Fui para o Japão com 53 anos e voltei com 63. Nessa época, compramos casa aqui em Campo Grande porque o sogro e a sogra moravam aqui”. Quando se despediu do país asiático, ele finalmente veio para Campo Grande em 2000, pois já tinha uma residência fixa. Chegando à capital sul-mato-grossense, começou a vender ovos, frutas e verduras em um carrinho que circulava pelas ruas da comunidade Maria Aparecida Pedrossian, onde viveu até 7 anos atrás.

Lá, o sensei ganhou visibilidade e sua história passou a ser conhecida após o presidente da Amape (Associação de Moradores do Parque Residencial Maria Aparecida Pedrossian), Prof. Jânio Batista de Macedo, encontrá-lo na rua e ouvir sua brilhante trajetória no esporte.

“Logo que soube de sua história, sobre sua vida com o Judô, convidei-o para vir na Amape ver o nosso tatame e conhecer o sensei Marcos Shimabukuro. Sensei Marcos comunicou aos veteranos do Judô de Campo Grande e muitos já conheciam o sensei Sato, que gostou de conhecer nossa turma do Judô”, narra Jânio em suas redes sociais.

Sensei treinando aluno na Amape (Foto: Jânio Batista)
Sensei treinando aluno na Amape (Foto: Jânio Batista)

Na época, o prefeito de Campo Grande era Nelsinho Trad. “Levei o sensei Sato no seu gabinete e contamos a história dele, mostrando seu arquivo pessoal. Quando adolescente, o prefeito Nelsinho praticou judô. Então, nós solicitamos a ele que contratasse o sensei Sato para dar aula na Amape”, comenta o presidente.

Nelsinho concordou com o pedido. Sensei Sato contribuiu com os judocas da Amape por aproximadamente 4 anos e 6 meses, entre 2010 e 2014, sendo exonerado ainda no final da gestão de Nelsinho. Quando Alcides Bernal assumiu a prefeitura na sequência, o novo prefeito acabou por não dar continuidade ao projeto.

“Esperei, continuei dando aula sem remuneração durante uma boa parte do governo Bernal. Só que uma hora eu vi que não ia dar mais e parei”, lembra o sensei. Parado e sem novas oportunidades no Judô em Campo Grande, Sato voltou a vender ovos em seu carrinho. “Como não tava dando muito certo, comecei a vender ovo, porque ninguém vendia ovo na rua, de porta em porta”, diz ele ao MidiaMAIS.

Sensei ficou na Amape até 2014, mas continuou em 2015 sem remuneração
Sensei ficou na Amape até 2014, mas continuou em 2015 sem remuneração

Contudo, há dois anos Noritoshi foi impedido até de ganhar seu pão diário dessa maneira e parou com as vendas pelos bairros em decorrência de um problema no fêmur. “Começou no lado direito. Aí eu tava usando bengala, andando de carrinho com bengala. Eu acho que forçou demais, e aí afetou o outro lado também. Agora, com os dois lados comprometidos, não tem nem jeito”, lamenta o sensei.

História e conhecimento

“Eu consegui meu nome aqui em Campo Grande mais por causa dessas coisas que, quando a confederação fez exames para formar técnicos de Judô, com o objetivo de padronizar grau de professores, fui o primeiro e único que conseguiu passar nesse exame. Então, sei a técnica de Judô original do Japão. A maioria das pessoas desconhecia, ninguém conhecia técnica que a federação adotou”, conta ele.

Sato diz que foi o único a receber graduação do Japão, da Kodokan (a primeira escola de Judô). “Tenho matrícula lá, quando peguei faixa preta, fui registrado. Mestre veio da Kodokan do Japão para o Brasil e eu fui um dos alunos. Único mestre que veio ao Brasil exclusivamente para dar aula a brasileiros. Tem muitos que vieram do Japão, mas não como técnico”, explica.

Sato e sua faixa vermelha: a maior graduação na cidade (Foto: Henrique Arakaki)
Sato e sua faixa vermelha: a maior graduação na cidade (Foto: Henrique Arakaki)

“Hoje eu tô andando com duas bengalas. Com dificuldade. A gente vai levando, mas tá difícil. E com essa pandemia, dinheiro não entra também. Hoje eu tô como presidente da comissão graduad

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